DARK TROPICÁLIA

Três Paisagens, por Cauê Alves

 

 

Mais do que um espaço ou território determinado a paisagem é também uma construção. Além de elementos naturais e geográficos, algo da história e da cultura está presente na paisagem. Ela está intimamente ligada ao horizonte de possibilidades e, por isso, possui uma dimensão temporal. Ou seja, a paisagem está ligada às projeções, ao que ainda irá acontecer, ao porvir, e também ao devir. Seja natural ou artificial, a paisagem está diante ou ao redor de nós e portanto é indissociável do ambiente em que vivemos. Ela foi objeto de investigação das ciências e das artes, desde os naturalistas que passaram pela América do Sul nos séculos anteriores, como como Karl Friedrich Philipp von Martius e Alexander von Humboldt, até artistas contemporâneos como os que integram a mostra Três Paisagens.

Entre os modernistas, fundamental é a pesquisa de Roberto Burle Marx, que ao longo de sua trajetória, além da mata atlântica, trabalhou com plantas do cerrado, espécies amazônicas e do sertão nordestino. Ele valorizou as espécies nacionais até então desprezadas e, entre o trabalho de artista e o de cientista amador, realizou dezenas de expedições em que descobriu espécies ainda não catalogadas. Mais do que fazer jardins, a paisagem para Burle Marx é construção de espaço público, áreas de encontro e convívio com o diferente.

Em 1965, Hélio Oiticica chamou de manifestação ambiental uma série de capas, estandartes e tendas, com a ênfase no corpo e em experiências sensoriais.  Dois anos depois realizou Tropicália, uma espécie de jardim, ou melhor, um ambiente com areia, pedras, plantas, papagaio, construções em madeira (Penetráveis) e poemas. Nesse ambiente tropical e colorido, havia uma alusão a paisagem carioca, aos morros e favelas. Além disso, o artista tinha vontade de elaborar uma imagem, mesmo que nada edificante, da realidade brasileira. Ela estava vinculada com a dança, o samba e a participação do espectador. Algo da impossibilidade de um Brasil moderno e civilizado estava colocado em Tropicália de Oiticica.

    Mais de 50 anos depois, Daniel Caballero participa na Casa do Parque de Três Paisagens, com Dark Tropicália, 2019. A série de quatro pinturas sobre lonas de caminhão traz imagens de paisagens tropicais da mata atlântica tendo o preto como cor predominante. Em vez de ressaltar o verde vigoroso das matas, usar cores saturadas ou algo de uma paleta de cores tropicais, Caballero nos chama atenção para as trevas e para a escuridão. De fato, a sensação geral é a de vivermos numa época obscurantista, de ocaso. No momento em que dados científicos são simplesmente negados em nome de crenças, parece que as luzes estão mesmo se apagando e que estamos no meio da tempestade.

A montagem das paisagens em grandes formatos bem próximas uma das outras cria uma espécie de ambiente. De perto vemos apenas borrões, linhas e manchas carregadas que se distanciam de um desenho frio ou duro. É apenas com o recuo que o nosso olhar se afasta do gesto do artista e apreende uma totalidade que se revela sempre por partes. A partir dos enquadramentos escolhidos é como se nunca pudéssemos ter a experiência com o todo da floresta, vemos sempre fragmentos, pedaços de árvores ou cipós.

Mais do que pintor, Caballero é também uma espécie de viajante naturalista contemporâneo que faz expedições pelos terrenos de Piratininga. Desde 2015, ele tem desenvolvido o projeto Cerrado Infinito a partir da pesquisa em terrenos baldios e remanescentes do cerrado no planalto paulista, que possui características bem diferentes da mata atlântica comum na Serra do Mar. No vídeo Transplante de Paisagem, o artista reativa uma praça na cidade de São Paulo a partir do momento que transplanta e cultiva espécies típicas do cerrado paulista no espaço público. O processo, por definição sem fim, conta com  colaboração de diversos agentes e parceiros que se juntaram em torno da causa. Além de um ativismo político, o trabalho trata da resistência das espécies que tradicionalmente são desvalorizadas e compreendidas como mato a ser exterminado. A obra de Caballero se coloca contra a homogeneização da paisagem e reabre uma discussão sobre a relação entre o ambiente e a construção de vistas urbanas.

Outro artista integrante de Três Paisagens é Fernando Limberger, que possui também uma atuação como paisagista profissional. Sua obra em geral reinventa paisagens a partir da desnaturalização do olhar. Ao se valer de pigmentos naturais e tons de areias que não vemos normalmente no solo, sua prática explicita que o que chamamos de paisagem tem um vínculo íntimo com o projeto e com a pintura. Claro que há uma complexidade de outras questões na construção de paisagens, que evolve espécies da botânica, o espaço tridimensional, o deslocamento de materiais e as variáveis do ambiente.

A paisagem que Limberger realiza na área externa da Casa do Parque  reflete o Parque Villa Lobos do outro lado da avenida. Tanto no sentido de espelhamento e inversão da imagem como de nos fazer refletir sobre as características desse espaço. O vínculo entre a casa e o parque se dá a partir da coleta e plantio que o artista fez de sementes de diversas espécies encontradas ali na frente. Trata-se de uma síntese das espécies de plantas que integram o projeto de paisagismo do grande jardim urbano, mas também das espécies invasoras, aquelas que nascem silenciosamente sem que ninguém as tenha cultivado. As plantas foram semeadas por Limberger numa área retangular de cerca de 25 metros quadrados. Ao longo do tempo da exposição as sementes vão brotando e se desenvolvendo. A paisagem para Limberger é um processo em constante transformação. A configuração com formas orgânicas que o trabalho adquire é comparável com as formas sinuosas dos jardins de Burle Marx. 

Mas a areia preparada é preta e bastante distante da exuberância cromática dos projetos de Burle Marx. Se por um lado a terra preta indica um campo fértil por conter resíduos orgânicos de decomposição, por outro é aquela que contém elementos mortos. A escuridão inicial predominante na sementeira se opõe ao estereótipo da paisagem tropical. A instalação traz elementos da cor do carvão, como se fosse o que restou de uma floresta depois da queimada. Os desenhos com penas de galinhas tingidas de negro em caixas transparentes, sÃo semelhantes, mas trazem um raciocínio pelo negativo. A cor aparece no fundo, a partir dos intervalos e vazios entre as penas. Os diferentes tons esverdeados dos papeis contrastam com as áreas escuras um tanto nubladas pelos fios das penas. Se os desenhos são autônomos e não partem de projetos paisagísticos, ele se aproximam bastante de plantas baixas usadas em projetos.

     A obra de Ana Paula Oliveira em Três Paisagens se relaciona com a paisagem menos como representação do que a partir da presença de fragmentos de elementos naturais como cascas de cigarras ou casulos. Em trabalhos anteriores a artista já recorreu a animais vivos como peixes e borboletas. Mas agora, a presença de animais metalizados, como se seus corpos estivessem preservados da ação do tempo, traz evidências da interrupção da vida. 

Está tudo suspenso, é como se nem mesmo o processo de decomposição pudesse ocorrer. Algo próximo de um estado de exceção. De uma forma piramidal, com o vértice apontado para uma das quinas do espaço expositivo, brotam cerca de 5 mil origamis de cigarras que se multiplicam e se espalham estranhamente pelo entorno. A estrutura da pirâmide, feita de dormentes, traz indícios da passagem do tempo. As peças de madeira-de-lei, retiradas de antigas linhas ferroviárias, são pedaços da paisagem. Pesadas, elas desafiam a gravidade, mas paradoxalmente para apoiar leves dobraduras de cigarras. Tradicionalmente a cigarra está ligada ao canto, a música e ao verão. Entretanto, as de Ana Paula Oliveira estão silenciadas, mudas e frias como o metal.

    A artista inventa pequenas paisagens, como se alguns animaizinhos tivessem nascido naturalmente em intervalos, sulcos na madeira ou no metal. É como se as formas já existentes dessem origem a esses casulos ou borboletas metalizadas que se acomodam ou pendem de materiais contrastantes. Algumas de suas caixas cobertas por vidros se aproximam de mostruários de museus de história natural que abrigam espécies raras. São composições em tons de cobre com formas geométricas misteriosas, materiais distintos, ao lado de exemplares reais ou inventados da fauna. Os desenhos recentes de Ana Paula Oliveira misturam linhas e casulos que se assemelham a fósseis. Suas colagens feitas a partir de livros de geologia, assim como em outros trabalhos dela, são frutos de lentos processos de sedimentação. 

As paisagens, tanto as que habitam os artistas da presente mostra quanto as produzias por eles, surgem do contato e da modificação do ambiente ao redor. Todos os três, seja intervindo diretamente no ambiente ou partindo de elementos naturais recolhidos, inventam paisagens e contribuem para a ampliação de nossa  percepção e consciência do mundo. Reunir trabalhos que extrapolam distintas convenções de paisagens é ultrapassar a noção instituída de que ela é aquilo que está diante de nossa vista. Cada uma das três paisagens abarca um campo aberto e indeterminado de sentidos que se aproximam ora pelo que há em comum – pela constatação de uma interrupção da vida, da recusa dos aspectos mais exuberantes num período de trevas –, ora pelas diferenças devido às singularidades de cada obra. Essa diversidade de paisagens, sem dúvida, é fundamental não apenas para o equilíbrio, mas para a superação das adversidades e o desenvolvimento do ambiente em que vivemos.