Começos do fim do mundo 0.2

Garageland

“Quando me mudei, ocupei todos os espaços da casa rápido, menos uma área anexa, 

uma garagem fechada com tapumes, separada por uma parede do resto do terreno.

Passou um bom tempo até decidir retirar os tapumes abrindo a porta da garagem. 

Dentro não tinha nada de especial, além de alguns restos de construção e entulho, que por lá ficaram.

O resultado foi um espaço ainda desconectado da casa, mas agora aberto para a pequena rua sem saída onde moro, uma vila escondida ao lado de uma rua movimentada. 

Apesar disso nada mudou, tinha me acostumado a estacionar o carro em frente da casa e a garagem continuou a ser um fundão esquecido.

Com o tempo, a garagem passou a acumular uma série de objetos inusitados, aspiradores de pó quebrados, sacos de entulho, caixas de papelão, embalagens de refrigerante, entre outros objetos, 

além das folhas das árvores, que se depositavam ali levadas pelo vento. 

Não tinha lixo orgânico, cheiro, ou algum atrativo para ratos ou baratas, ou algo difícil de conviver, então deixei assim, passei a observar que as coisas mudavam de lugar de um dia para outro, pequenos movimentos ajeitavam tudo e conforme novos elementos apareciam, vindos não sei de onde, se formava uma nova paisagem.

Não era agradável para meu vizinho, que me pediu, meio ríspido, para colocar tudo numa caçamba, 

enquanto eu já começava a trabalhar com esses materiais, fazendo desenhos, esculturas, 

e somando os lixos que produzia eu mesmo. Tentei explicar sem sucesso, para ele tudo era lixo.

Ignorando o senso estético do vizinho, além dos objetos que eu adicionava, passei a escrever frases

de coisas que aconteciam comigo, de uma forma cifrada.

Tinha a ver com as pessoas que moravam ao redor ou que me visitavam nesse período, ou o que lia na época.

O vizinho implicou com uma frase do diário de Hans Staden, "Logo serás morto por mim, e devorado por todos". Achou que era uma ameaça, e isso gerou uma discusão longa e tonta, até se convencer que não era nada com ele.

A dinâmica continuou com novos objetos adicionados que se revezavam com outros que desapareciam. 

Parecia que talvez, diferente do meu vizinho, algumas pessoas gostavam do que fazia e levavam embora, e aos poucos se formou uma pequena dinâmica de trocas. Ás vezes aparecia algo escrito em fragmentos de revistas, eu lia os textos em pedaços e interpretava como uma tentativa de comunicação. Sei que parece um delírio, mas alguns arranjos eram estranhos demais, como embalagens vazias de iogurte, que dispostas formando círculos, pareciam um mini Stonehenge.

Aos poucos, algumas pessoas paravam em frente para ver e  começaram a se formar alguns grupos, que de tempos em tempos visitavam a garagem, e tiravam fotos. Talvez de alguma forma eu estivesse  entrando dentro de um circuito de pessoas que gostavam de grafite e arte urbana, que ficavam zanzando por ai. 

Esse movimento ainda que sutil, começou a dividir outros vizinhos, que até então ignoravam tudo, mas passaram a se preocupar com números grandes de pessoas rondando a vila, então para não criar mais problemas decidi por um fim ao experimento, iria queimar tudo, como se fosse um ritual de limpeza.

Simplesmente descartar esses objetos seria manter eles em deslocamento, queria cortar a comunicação definitivamente, e ver aquela paisagem desaparecer bem na minha frente.

Á noite, acendi o fogo enquanto tirava fotos, era tranquilo, tudo estava sob controle. 

Não tinha medo de virar um incêndio, pois não tinha nenhuma construção relevante por perto.

Estava bem escuro, o poste de luz da rua estava quebrado, o que foi ótimo para as fotos, iluminadas com a luz natural do fogo.

Mas rapidamente a idéia foi se revelando ruim,  alguns materiais com componentes de plástico criavam uma fumaça preta com um cheiro forte, então tirei as últimas fotos e apaguei tudo.

A paisagem continuou lá, agora chamuscada.

Decidi então, tomar posse do meu terreno e construir uma garagem integrada com a casa, chamei os pedreiros que  derrubaram tudo em um dia, e a área ficou livre preparada para começar a construir. 

No final da manhã seguinte, era um sábado, e eu ainda dormia de uma sexta á noite quando tocou a campainha. Um casal novinho, vestidos com roupa de rapper perguntavam se era eu que tinha destruído a instalação.

Respondi que sim, e antes de eu continuar, ficaram bravos, disseram que tinham marcado o encontro de um coletivo do qual faziam parte, para usar a garagem e fazer performances dentro dela.

Um coletivo? Enquanto pensava se estava dormindo ainda, eles se foram bravos. Fiquei sem reação, depois de um minuto sai, tentei encontrá-los mas não tinha mais ninguém. Fui até a garagem e vi um pedaço de azulejo num canto, com um escrito de caneta Poska, onde se lia:  "A instalação foi destruída! A ação foi cancelada! Aguardem novas instruções! Ass: Matilha UFO."

Pós- Conceitual  por Saulo di Tarso,  2008

 

Nunca me esqueço do silêncio plasmar causado pelas afirmações feitas por Robert Kudielka, no Centro Universitário Maria Antônia, quando discorreu sobre a arte contemporânea internacional. Ao finalizar sua fala, ele dizia algo no sentido de que tínhamos que descer do vagão simbolizado por Duchamp, Beuys e Kabakov e inventar outra coisa, porque até então éramos ramificação imitativa daquilo que os três decanos trouxeram à realidade da Arte.

A platéia era composta, na sua maioria, por artistas e críticos descendentes ou afirmativos dos três. Na medida em que Kudielka falava, brotava-nos o conjunto de linguagens consagradas por ao menos duas gerações (80 e 90) representadas ali. Nunca mais ouvi ninguém falar a respeito. Mas, de fato, aquele dia foi um divisor de águas, no mínimo, porque delimitou muito bem que havia a necessidade do “fim” de três pregnâncias na arte tida como global: conceitualismo, neoformalismo e a das problemáticas ecológico-visuais proativas existentes na arte de Kabakov.

 

Daniel Caballero é uma espécie de autófago das artes visuais: quando você menos espera, surge uma harmonia refinada de dentro do caos e do previsível somados na sua linguagem. Harmonia que ele cria ao unir caligrafia à simbologia que traz de uma universalidade da ilustração, universo no qual se insere como criador original. A figura humana que forma edifícios transcende o óbvio e reafirma que do urbano nascem múltiplas realidades. A imagem nasce da palavra.

Sua ação visual resulta de um uso não pré-determinista das técnicas gráficas, digitais e espaciais. Esqueletos e barracos, vida e morte, poesia e cacografias. Você vê um muro na sua pintura? Eis o inverso do graffiti. Engana-se quem pensa que Caballero é uma espécie de neo-antropófago, pois do mesmo modo como a Antropofagia inaugurou a interação nas artes, a interação está transformando a Antropofagia em algo esmaecido no tempo. No que isso vai dar? Honestamente, não sei. Mas este “fim do mundo” que nos conta Caballero o alinha com Daniel Melim, Marcos Garutti, Nunca, Mangue beat, Funk carioca, Re:combo, Cordel do fogo encantado... Isso é Pop? Não, é outra coisa. É algo que veio das ruas onde Nina atuou como atriz e das sertanidades urbanas espalhadas por aí.

Cidades feitas de gente multicultural e multiconflitiva. Uma quarta via, talvez, coletivos pós-tudo feitos por artistas que não precisam descer do vagão, pois jamais estiveram nele.

Segundo o que se vê em “o começo 0.2”, Caballero está fazendo a beleza clássica contemporânea arder no fogo do inferno: aqui, outra iconoclastia: aquela que põe fim à lógica das instituições que pairam sobre todos como uma entidade de absorção, passagem e emissão de um conhecimento visual obrigatório. É uma situação visual livre, que do nanquim ao Macintosh, e daí para as ruas apreendidas pelo seu olhar, vai somando ao graffiti, webart e às mídias, musicais, impressas, sem incorrer a sua postura como figura única das artes visuais estigmatizadas por um circuito. Ao contrário, ele faz parte de um enredo coletivo, legado da geração contemporânea, sem limite de idade ou delimitação de escolas: fim. E viverão felizes para sempre: caos e Kudielka.

Andando desenho percursos inúteis que desenham linhas imaginárias

Intervenções domésticas, reconfigurando o espaço, reflexões sobre os cômodos, o que acumulo e descarto, as relações espaciais da cidade para a casa, da casa para o habitante.

"Desenhava prédios falantes, emergindo entre ruas,  que diferentemente das vias quadriculantes da cidade, eram ondulações sem grid, como trilhas de terra pré-urbanas, que se formavam com duas linhas correndo paralelas.

Era um desenho simples.

   Sairam do papel para as paredes, trazendo simbolicamente o externo para dentro, representando os percursos que habitualmente fazia na rua, como um mapa sem exatidão cartográfica, mas que era uma vista aérea dos vários caminhos que fazia na minha rotina. Essas caminhadas formavam emaranhados, novelos como minhocas que devoravam as paredes, entravam nos cômodos e corredores da casa, criando novas relações espaciais e sobrenaturais como no início dos tempos.

A linha tem esse poder.

   Massas de tinta preta, desintegravam a parede, jogando com a luz  sugerindo a entrada de uma caverna, que por não ter acesso, me impeliam a quebrar a parede para conseguir entrar.

   Continuei fazendo desenhos enquanto os pedreiros me ajudavam a redefinir os espaços, um jogo onde os desenhos eram alterados diariamente por todos. Para minha surpresa era uma equipe muito eficiente,

rápidamente colocaram fim ao experimento."

Geofágos educados não acreditam em linhas imaginárias

O espaço é o território onde o ser se concretiza  por Douglas de Souza Leão,  2009

Enquanto indivíduos, erguemos muros e os decoramos ao nosso bel-prazer. Já como sociedade, estamos sujeitos à coerção dos muros alheios.

A ordenação social muitas vezes reprime a potência do indivíduo.

Daniel Caballero expressa através das linhas e das formas a eterna luta do sujeito contra o espaço normativo.

O mesmo espaço que nos permite tecer a vontade, é, por outro lado, o elemento que nos castra, pois agrega o peso sufocante do todo. O indivíduo passivo se cala em seu próprio desespero, e vive uma existência cheia de palavras não ditas.

Geófagos é a expressão do sujeito ativo devorando os limites arbitrários e construindo a sua própria história.


Texto de catálogo na exposição Boas maneiras: Geofágos educados não acreditam em linhas imaginárias na Casa do Olhar em St André