Pecorino maloca

"Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropofágo", por Alexandre Ignácio Alves

 

*Manifesto antropófago (1928) Oswald de Andrade.

Dois grandes intelectuais brasileiros pensaram a cultura brasileira como uma cultura de apropriações.

Na saga “Macunaíma”, o poeta, romancista, crítico de arte, musicólogo e ensaísta Mario de Andrade afirma o povo brasileiro, como” um povo sem nenhum caráter”, um povo mestiço, de um país formado por todos os continentes.

Oswald de Andrade escritor do “Manifesto Antropófagico”, nos descreve como sujeitos de uma cultura antropofaga, ou seja, uma cultura de assimilação e apropriação do outro. Mas para ambos, a antropofagia é usada no sentido simbólico. O antropófago não come para alimentar-se mas para apropriar-se de características qualitativas do outro. misturá-las e hibridiza-las, transformando-se assim em algo novo.

São Paulo é uma megalópole antropofágica, que devora sem concessões seus 18 milhões de habitantes que, vindos de todas partes, devoram a cidade com uma voracidade luxuriante. E isto não deixa de multiplicar a rede de interação com outras grandes cidades do país, 

No Brasil somos capazes de conviver com a diversidade antropológica de um modo particular. Esta forma acentuada por um certo caos social no convívio é a nossa grande contribuição para o mundo, ou seja, somos capazes de gerar uma sociedade multiétnica e transcultural que advém da apropriação das diversidades.

Somos uma nação multidisciplinar por excelência.

 

A escolha dos artistas que participam deste contexto se deu pelo viés da apropriação, ou seja, a partir da pluralidade de meios expressivos, da diversidade de pensamentos e origens étnicas dos convidados e de como estes artistas se utilizam destas linguagens para experimentar e ou absorver o outro. E quando algo no outro nos diz respeito é porque já temos internamente algumas reminiscências da nossa semelhança, muitas vezes guardada em toda e aparente diferença, que existe nas coisas.

Há uma projeção, um processo de internalização do outro. Esta pode ser uma chave para a leitura da linguagem arte-cinema que se projeta na obra de Cao Guimarães, Rua de Mão Dupla. Ele dá aos participantes (ou espectadores/ ou ambos?) a oportunidade de experimentar o outro em si mesmo.

Surgindo da dança, mas transpondo seu limite para o corpo-arte, vem a proposta de Carolina Novelleto, "Nós", que experimenta, em si mesma, os vários corpos da metrópole, corpos observados atentamente e nos quais ela percebeu as diversas influências étnicas, sociais e culturais que os moldam.

Na contramão, o venezuelano Ricardo Alcaide subverte a ordem canibal nas séries "transeuntes" e "Outdoors", ele devora e é devorado pela cidade. Sendo ele o único estrangeiro, sofre o incômodo com a cidade de São Paulo, o que o leva a manipular as imagens, criando uma “realidade” inexistente no entorno que a princípio lhe parece estranho. 

E na sua instalação "Começo do Fim do Mundo", Daniel Caballero transforma a cidade e suas mazelas em seres atávicos, impiedosos com seus habitantes. O caos urbano é a sua ode, a favela seu reino e o barraco seu castelo. 

Bienvenuti Signori in questa realitá paulistana, Babel brasileira, a metrópole que é a própria antropofagia.

Texto realizado para catálogo da exposição  Metropolis : contenitori di quali contenuti?, GIL, ex casa della Gioventú Italina del Littorio di Trastevere, Roma - 2007.