VIAGEM PITORESCA ATRAVÉS DO ESPAÇO AO REDOR DA MINHA CASA  04  |  CAMPOS INVISÍVEIS

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

São José está a ponto de perder seus campos para sempre, os poucos que sobraram, se transformam rapidamente em condomínios. O processo acelerado de apagamento dessa paisagem já afeta a memória de quem a vivenciou de alguma forma. A exposição na unidade do SESC da cidade, fez a população reencontrar sua paisagem ancestral, e iniciou um debate de como evitar o fim dos Campos de São José.

Documentário sobre a paisagem de cerrado de  São José dos Campos, para a exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

E agora São José?, por José Bento Ferreira

 

Daniel Caballero tem convicção de que o cerrado é o bioma originário do planalto paulista e de que foi desfigurado pela colonização e pelo industrialismo. A teoria dos refúgios, adotada no Brasil pelo geógrafo Aziz Ab’Saber e pelo biólogo e compositor Paulo Vanzolini, apenas incendeia o entusiasmo do artista plástico. De acordo com a controversa teoria, o cerrado predominou até a última glaciação, milhares de anos atrás. Depois do aquecimento, estenderam-se as áreas florestais a partir de certos redutos, ou refúgios, deixando atrás de si remanescentes do cerrado arcaico.

Por causa desses enclaves, é possível que certas regiões paulistas habitadas por povos indígenas e ocupadas por colonizadores tivessem o aspecto de savanas, o que explicaria nomes de lugares como os “Campos” de Piratininga, Santo André da Borda do “Campo” e São José dos “Campos”. Esta paisagem antiga, que os brasileiros conhecem como típica das regiões nordeste e centro-oeste, teria declinado em São Paulo por causa da introdução de espécies exóticas ao longo do período colonial. Espécies de árvores ornamentais e capins para pastagens mudaram a paisagem paulista, o que se acelerou com a expansão do agronegócio, a instalação de indústrias, a construção de estradas e o crescimento dos centros urbanos.

Porém, assim como os biomas naturais, a paisagem do antropoceno apresenta descontinuidades, refúgios onde certas espécies típicas do cerrado sobreviveram. Ao explorar esse redutos, Daniel Caballero criou o Cerrado infinito, um projeto de arte e ativismo cujos desdobramentos chegam ao SESC São José dos Campos. Segundo o antropólogo Marc Augé, podemos chamar de “não-lugares” os espaços resultantes do desenvolvimento urbano, em geral voltados para a mobilidade, como estradas, estações, terminais. No rastro dos não-lugares se formam lugares vazios, espaços ermos, terrenos baldios. Neles Daniel Caballero encontrou sobrevivências do bioma arcaico.

Ao reconstituir um cerrado paulista, Daniel Caballero não pretende reverter o progresso, mas revelar sua ação predatória evocando a imagem do mundo perdido. O fogo com o qual essa vegetação reliquiar está naturalmente acostumada é um ambíguo emblema presente nos vídeos, derivas e desenhos do artista: remete tanto à destruição da paisagem por força do progresso desenfreado quanto ao ressurgimento dela por meio do trabalho de arte.

Texto do Catálogo da exposição, Campos invisíveis, realizada em 2018, no SESC Sao José dos Campos.

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018

Exposição Campos invisÍveis, na unidade do SESC São José dos Campos, 2018